ChatGPT e como ele vai mudar a vida do professor

É perfeitamente possível educar alguém com um professor, lousa, papel e lápis. As melhores mentes do mundo foram educadas assim, além de quase todas as mentes menos brilhantes, como esta que vos escreve. 

Esta é a única ótica que realmente interessa, a do resultado. A maioria das críticas que leio sobre educação se concentra no método, não na execução. Vão numa direção mais ou menos assim:

 •    É antiquado haver um detentor do conhecimento em cima de um tablado e os estudantes ouvindo passivamente

•    Existem telas brilhantes e opções infinitas de mídia, porque insistir em usar um quadro negro?

•    Pra que escrever se podemos digitar, ou memorizar se podemos procurar no Google ? 

Tudo partindo da hipótese que nossas crianças e jovens gostariam de um estudo mais divertido, hypado, imersivo, gamificado.

Ocorre que ensino não é diversão, assim como trabalho não é lazer.

Podemos fazer o trabalho mais divertido, podemos tornar o ambiente de estudo melhor. Mas trabalho e estudo são fins em si mesmos, parte relevante da vida de qualquer pessoa. 

E que portanto têm resultados que devem ser medidos.

Existem dezenas de métodos de avaliação de desempenho no trabalho. Nas empresas modernas nosso desempenho se mede por tarefa, por KPIs, por NPS. Se mede o chefe acima, o subordinado abaixo, se mede nível de satisfação, se mede tudo, todo o tempo. Se ficar nos últimos 10% de um índice qualquer, sua cabeça estará a prêmio.  

Ensino se mede bem menos. O aluno, através de provas mensais e bimestrais. As escolas, municípios e países, em testes anuais, Ideb e Saeb no Brasil, Pisa globalmente. Seria melhor medir mais, mas o que temos já nos passa informação suficiente.

A mais importante delas: o ensino no Brasil não funciona. A nota média no Ideb para o ensino médio é 4.2. No Pisa, entre 77 países, o Brasil fica na posição 66. Acha que seu filho não tem esse problema porque está em escola particular? O Ideb delas é 5.6.

Neste momento do mundo o que realmente importa é como tornar nossas escolas mais eficientes. As escolas da China (disparada em primeiro no mundo ) ou do Chile ( vinte posições na nossa frente ) não estão buscando ser legais, mas formar bons alunos, que no futuro se tornarão bons profissionais. E, quem sabe, bons cidadãos. 

E a inteligência artificial? E o ChatGPT?

Sabemos que não é infalível. Mas se vira bem, de história a filosofia, de ciências a culinária. Ele é um repositório de todo o conhecimento humano, bom e ruim.

Como uma daquelas grandes bibliotecas nas quais é uma delícia vagar a esmo, ou o Google. Mas com uma grande diferença.

 Nem corredores de biblioteca nem o google falam com você. Eles te despertam a curiosidade, indicam caminhos.

Mas não dá pra perguntar pro Google, em termos coloquiais, se ele acha mesmo que a Revolução Farroupilha foi uma revolta de donos de terras brigando pelo preço do charque ou uma tentativa de criar um novo país. Muito menos dialogar com profundidade sobre as teses que sustentam cada uma dessas hipóteses.

Com o ChatGPT, isso é possível. Ele é um tutor paciente e bem informado. É versado em áreas infinitas de conhecimento e capaz de avalir e sugerir abordagens diferentes. Como um espelho de nós mesmos. Em muitos casos, dos melhores de nós.

Isso representa uma ameaça e uma benção para a educação. Ameaça porque a organização educacional em que um mestre detém todo o conhecimento é funcional e é escalável.

Essas são características importantes, mas é uma solução frágil porque depende de coisas que são difíceis de garantir: o talento e preparo do mestre, as condições materiais dele atuar, e a capacidade de aprendizado e a realidade social de cada aluno.

Porque todo mundo é diferente. Então a escola ensina pela média. É o que dá pra fazer. Então a gente mede tudo pela média também. Das salas, dos cursos, dos países.

O que o ChatGPT permite é demolir o império secular da média.

Com ele, a gente pode finalmente perguntar, “Ei, aluna, o que é bom pra VOCÊ ?”

Estou sugerindo abolir o papel do professor ? Respondo categoricamente: não.

Inteligência Artificial existe para ampliar e estender o potencial humano. Ela dará superpoderes aos professores. Será um fator de libertação do educador.

Se queremos manter a parte essencial do ensino, que é convivência em sala de aula, e simultaneamente turbinar a capacidade de aprender, faço algumas sugestões, que não são extensivas, muito menos pretendem esgotar o assunto, mas apenas iniciar uma conversa que espero ser longa e produtiva:

 •    Que os melhores mestres em cada matéria gravem vídeos explicando o conteúdo no qual se destacam (porque professores são humanos, e não conseguem ser bons em tudo) 

•    Que o chatGPT, numa versão controlada (sim, é possível, estou afirmando), reforce o aprendizado, passe e corrija exercícios

•    E assim os professores em sala de aula poderão se concentrar em promover a convivência social, aprofundem os temas, tirem dúvidas complexas, avaliem e corrijam o rumo dos estudos de cada aluno, conforme a necessidade específica de cada um.

É preciso abrir a sala de aula para a Inteligência Artificial, sem preconceitos. Ela poderá potencializar o ensino, e enriquecer a convivência entre professor e aluno, muito além do que hoje conseguimos imaginar.

Para quê? Para termos uma educação que valorize profundamente os 4 Cs: pensamento crítico, criatividade, colaboração e comunicação.

Afinal, é disso que cada um de nós precisa, e nossos filhos e netos também, para criar um mundo mais educado, mais inteligente – e mais humano.

Alex Winetzki, fundador e CEO da Woopi e diretor de P&D do Grupo Stefanini.