Uma história de 3 ingleses, e se eu penso que LaMDA é consciente

Uma história de 3 ingleses, e se eu penso que LaMDA é consciente

O primeiro inglês se chamava Alan Touring. Ele nasceu em 1912 e se graduou no King´s College da Universidade de Cambridge, gostava de corridas de longa distância e jogava xadrez (mal, segundo ele próprio).

O matemático, físico, pensador, biólogo, rosto da nota de 50 libras e considerado o cientista inglês mais importante do século 20, morreu muito jovem, aos 42 anos, sem qualquer reconhecimento na época, em depressão por estar respondendo a um processo e sob ameaça de prisão pela realização de ´atos homossexuais´ (enorme vontade de discutir a ´pauta dos costumes´ aqui, mas vou me segurar).

Na sua curta vida, Alan Turing deu contribuições relevantes a matemática, física, biologia, salvou o mundo ao criar a máquina Enigma para quebrar os códigos nazistas na Segunda Guerra Mundial e de quebra criou tanto o que chamamos de computação quanto sua disciplina irmã, a Inteligência Artificial, cujo teste mais prestigiado ainda se chama ´o Teste de Turing´.

Turing acreditava no potencial das máquinas para ampliar a inteligência e capacidade humanas, lançou as bases da codificação binária e estabeleceu os pilares técnicos e científicos para quase tudo o que chamamos de ´tecnologia´ hoje.

Dá para falar muito mais de Turing, mas é melhor recomendar um livro, porque vale a pena saber mais sobre ele.

O segundo inglês se chama Demis Houssabis, ele nasceu em 1976, se formou também em Cambridge, mas no Queen´s College, foi um prodígio infantil no xadrez, representando a Inglaterra campeonatos mundiais, adorava videogames e criou clássicos do gênero ao lado de Peter Molyneux.

Houssabis não tem a face em nenhuma nota inglesa e não é considerado o maior cientista inglês do século 21, AINDA.

Também não foi processado por alguma pauta vitoriana e não lhe falta reconhecimento acadêmico ou financeiro, já que sua startup DeepMind foi comprada pelo Google em 2014 por 500 milhões de dólares, o que fica um pouco mais surpreendente porque no momento da compra a DeepMind era um time de poucas dúzias de funcionários e não tinha nenhum produto, serviço ou faturamento.

Houssabis fez contribuições relevantes na neurociência, onde obteve um PhD durante um período sabático, porque queria entender melhor o cérebro humano para poder alcançar seu grande objetivo de vida, criar sistemas que pensam por si próprios.

E ele já deu muitos passos nessa direção. Lançou robôs que aprendem a jogar sozinhos, venceu o campeão mundial de Go, e depois criou outro robô que fez picadinho do primeiro no tabuleiro, criou um sistema que processa de maneira super eficiente as dobra de proteínas, e recentemente anunciou um sistema multitarefa chamado Gato que, segundo a DeepMind, nos aproxima muito da Inteligência Artificial Geral. Também dá pra falar muito do Demis Houssabis, e vou fazer isso no futuro, mas paro por aqui hoje.

O terceiro inglês se chama Ian McEwan, e é talvez o maior escritor inglês vivo. Ele nasceu em 1948 e publicou seu primeiro livro em 1975. Sua obra Atonement (2001) lidera algumas listas como o melhor livro escrito no século 21.

Mas não vamos falar de Atonement, vamos falar de Machines Like Me, que McEwan publicou em 2019, e que tem uma proposição interessante. Alan Turing não morreu, e tomou como seu pupilo nos anos 80 um jovem de grande potencial chamado Demis Houssabis. Juntos, eles criaram o primeiro ser humano artificial, que é o personagem principal do livro.

Como em quase todas as obras de ficção que tratam do tema AI/robôs (outra recente é Klara and the sun, de Kazuo Ishiguro) , os robôs são caras super inteligentes, educados, com profunda compreensão da falibilidade e beleza do ser humano, leais e fundamentalmente nobres. São, portanto, uma versão polida, idealizada de nós mesmos.

O que me leva, depois disso tudo, de volta ao LaMDA.

Se não sabe do que eu estou falando, seguem os links pro meu primeiro e segundo artigo sobre o assunto.

Quando lemos o diálogo entre Blake Lemoine e LaMDA, o robô super-inteligente, que tem no coração, você adivinhou, códigos desenvolvidos por Demis Houssabis e sua empresa DeepMind, o que encontramos?

Um robô decente, bem educado, lido, culto, gentil e leal. Do tipo que mesmo a gente, fazendo um esforço danado na educação dos filhos, tem dificuldade de criar.

Por isso eu, mesmo muito impressionado com o que li, não acho, como a grande maioria dos cientistas da área, que o LaMDA tenha desenvolvido senciência.

Acho que ele é o trabalho de um grupo notável de cientistas, que entende tão bem as limitações dos sistemas de processamento de linguagem que conseguiu eliminar a percepção de várias dessas limitações, mesmo pra gente experiente como eu, e merece aplausos por isso.

Ocorre que que a senciência do LaMDA não é absolutamente o assunto mais importante do diálogo que deu início a esta série.

Turing, Houssabis, DeepMind, AI.org e seu GPT-3 estavam, estão, tentando criar sistemas que fazem algo como nós, ou melhor que nós.

Existe ´sabor artificial de morango´ porque ele mimetiza um sabor natural de morango. Chamamos a disciplina sobre a qual estamos falando de ´Inteligência Artificial´ porque existe uma outra que estamos tentando reproduzir, a nossa.

E independente de terem gerado consciência, um termo que é tão biológico como filosófico, esses sistemas estão alcançando e ultrapassando nossa capacidade em diversas áreas.

Esse é um grande assunto, e um sobre o qual vejo muita pouca discussão. Porque, como um tsunami, há muito poucos sinais de alerta até que ele esteja perto demais. O diálogo entre Lemoine e LaMDA é um alerta de tsunami.

Que terá um impacto enorme em quase tudo o que pensamos e fazemos. Nos nossos empregos, na nossa forma de aprender e consumir informação, em como criamos, cooperamos, organizamos a sociedade e em como a economia se move.

É sobre esse impacto que vou escrever logo mais.

Alex WinetzkiCEO da Woopi e diretor de P&D do Grupo Stefanini.